JUAN NAROWÉ

b. 1993
Lives and works in Spain
and Brazil

WORK IN PROGRESS

Drawings
Paintings
Tattoos

Das fugas, a mais humilhante, a que lhe entrega menos premissas de vida, a que te transporta de um poço para um abismo, é a fuga de uma prisão. Depois de anos enxergando os mesmos ângulos das mesmas cores, com as mesmas coleções estranhas de recortes na parede, a cela é uma contagem regressiva bagunçada pelo descompasso do tempo, num horizonte definido entre uma pia e com sorte um colchão. A investida de uma fuga é decisão de futuro incerto, de ilusão, mas também de transposição de espaço e uma
esperança etérea de quem teve seu corpo transformado em rocha. Nas pinturas que integram essa exposição, o artista Narowé compõe paisagens mistas entre o horror e a glória da liberdade, isso quando não lembram e  punem por um suposto passado sujo. De um ângulo otimista e brilhante, seus personagens de manto rosado quebram cercas, rompem portas, carregam seus pertences e caminham para a solidão vestidos em suas próprias mãos, peles e ossos. Nos painéis, uma memória de brutalidade e arrependimento estão eternizados, uma analogia dolorosa das memórias do detento.


As formas mergulhadas na abstração, nas manchas, nos borrões parecem dialogar sozinhas, numa linguagem infantil, caracterizada por uma grafia tola do atrofiamento mental que causa a solidão, a falta de estímulos, luz do sol e comida salgada demais. Cada letra soa enrolada, disléxica, desmemoriada. A fuga dói no corpo, o movimento de quem estava desacostumado a caminhadas largas, dói nos olhos a luz exagerada do verão, o incômodo da bagunça dos fios de grama e o galho das árvores, o susto agudo do pio de um pássaro e a vertigem do horizonte tão longe, que com as mãos despedaçadas esses personagens intentam alcançar.

Bia Bittencourt


A fuga           -
Juan Narowé, 2018
Installation with painting and drawing serie
Variable dimensions